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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Jovens e o álcool: o perfil do universitário brasileiro

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os padrões de consumo de álcool mais nocivos, como o "beber para embriagar-se" e o beber pesado episódico (também chamado de heavy episodic drinking, correspondente ao consumo de 4/5 ou mais doses em uma ocasião), estão fortemente associados aos comportamentos de risco (dirigir alcoolizado, violência, sexo desprotegido, entre outros) e são padrões de consumo frequentes entre os adolescentes e adultos jovens, o que merece atenção especial, sobretudo devido às funções que estes deverão exercer à sociedade e ao desenvolvimento do País.


 O Brasil está no ranking de altíssimos índices de mortalidade e morbidade causadas pelos acidentes de trânsito, especialmente em jovens, em que o consumo de bebidas alcoólicas está diretamente envolvido. Daí a urgência da discussão e a implementação de medidas restritivas que possam contribuir para expressiva redução desses índices. Nesse sentido, países como a França, Espanha, Japão e outros obtiveram relevante sucesso na redução de mortalidade decorrente de acidentes de trân
sito, por meio dessas medidas de controle do uso do álcool, entre as quais forte combate ao dirigir sob efeito do álcool. No caso da Lei Seca em vigor no Brasil o estudo mostra que apenas 26,4% tiveram seu comportamento influenciado por ela.
Visando compreender o comportamento do jovem brasileiro com relação ao uso de bebidas alcoólicas, a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), em parceria com o Programa do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas,  realizou o 1º Levantamento Nacional sobre o Uso de Álcool, Tabaco e Outras Drogas entre Universitários das 27 Capitais Brasileiras. Na pesquisa é apresentado o perfil dos jovens frente ao consumo de álcool e outras drogas, as implicações do uso destas substâncias na saúde e no desempenho acadêmico, bem como os comportamentos de risco a ele associados.

Entre os principais resultados, verifica-se que o álcool é a substância mais utilizada entre os universitários, com aproximadamente 90% tendo relatado o consumo na vida. Nota-se que grande parte relatou o consumo no último ano (72%) e 60,5% beberam no mês que antecedeu a entrevista o que mostra que o consumo do álcool é um comportamento frequente e repetido entre a maioria dos estudantes.


Outra informação interessante é que, embora a legislação brasileira proíba a venda de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos de idade, 79% dos jovens com idade abaixo de 18 anos relataram ter consumido bebidas alcoólicas. 

Ao analisar o consumo de risco para problemas relacionados ao álcool, verificou-se que 25% dos universitários relataram pelo menos uma ocasião de consumo pesado episódico ( heavy episodic drinking ) no mês anterior à entrevista, ou seja, um em cada quatro estudantes está frequentemente exposto a comportamentos de risco, como acidentes de trânsito, atos violentos, sexo desprotegido, entre outros. Ademais, 19% apresentaram consumo do álcool de risco moderado para o desenvolvimento de dependência e 3% de alto risco.



Em relação aos comportamentos de risco decorrentes do uso de bebidas alcoólicas, constatou-se que a chance do estudante dirigir embriagado foi quatro vezes maior entre aqueles que beberam em níveis moderados (3-4 doses) quando comparados aos que haviam consumido apenas 1 dose.


Álcool

Outro fator apontado pelos próprios universitários como suposta causa dos acidentes que sofreram é a bebida alcoólica. Na pesquisa, 66,3% dos estudantes admitiram beber, principalmente cerveja. Um quarto da população masculina pesquisada confessou que bebe antes de dirigir. Entre as universitárias, embora esse porcentual seja menor, elas relataram ser mais frequentemente passageiras em veículos cujo condutor bebeu. Um hábito que, segundo a pesquisa, tem início precoce.

De acordo com o levantamento, 51% dos estudantes começaram a beber entre os 15 e os 17 anos. Entre os estudantes, cerca de 10% beberam a primeira vez com 14 anos ou menos. “Metade dos acidentes com morte, envolvendo jovens de 18 a 25 anos, está associada ao álcool”, destaca a médica Fábia Maria Oliveira Pinho, coordenadora da pesquisa.

Os resultados da pesquisa reforçaram estatísticas de outras instituições. Estudo da Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI) divulgado no ano passado, denominado Mapa da Violência no Brasil, coloca Goiânia no topo do ranking das capitais com as maiores taxas de óbitos de jovens de 15 a 24 anos por acidentes de trânsito e transportes. Média de 56,3 mortes por 100 mil habitantes.

Quanto a pegar carona com um motorista alcoolizado, o risco de engajar-se nesse comportamento foi quase quatro vezes maior entre estudantes que ingeriram até 2 doses de álcool do que entre aqueles que não bebiam. A probabilidade desse comportamento ocorrer foi proporcional ao número de doses consumidas: os indivíduos apresentaram 6, 9 e até 15 vezes mais chances de engajarem-se nesse comportamento após consumir, respectivamente, 3, 4 e 5 ou mais doses de bebidas alcoólicas. Isso demonstra que, mesmo em pequenas quantidades, o uso do álcool está associado a comportamentos de risco no trânsito.
De maneira geral, a entrada na universidade inaugura um período de maior autonomia e possibilita novas experiências aos jovens; para alguns, constitui-se um momento de maior vulnerabilidade e, portanto, maior suscetibilidade ao uso de substâncias, bem como aos prejuízos decorrentes do mesmo.

Dados como os citados acima nos possibilitam compreender o perfil do universitário brasileiro e demonstram a grande exposição dos jovens ao álcool, especialmente entre as mulheres. Desta forma, cabem aos profissionais da área da saúde, academia, pais, educadores, governantes e à sociedade como um todo atentar para este público oferecendo informações de qualidade sobre os prejuízos decorrentes do uso precoce e prejudicial do álcool.

Verifica-se, ainda, a necessidade de programas de prevenção com o intuito de, não apenas postergar o início do uso, mas principalmente olhar para os jovens que já consomem álcool, a fim de que o uso não evolua para um consumo de risco, e para aqueles que o fazem, oferecer apoio para que não desenvolvam problemas mais graves, como a dependência.

Arthur Guerra de Andrade é médico psiquiatra e presidente-executivo do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA)